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Flávia Monjardim

Eu quero muito aparecer, e mesmo assim eu me sabotei de novo

A auto-sabotagem volta. Ela não é uma fase que se atravessa uma vez. Cada território novo cobra o mesmo pedágio. E cobra mais caro de quem já é bom no que faz. Eu vivi isso. Vivi de novo, anos depois, com o negócio de pé. O que mudou foi o que eu faço quando ela chega.

Por que isso volta justo quando eu já sei o que faço?

Porque competência não protege ninguém. Ela só muda o tamanho da queda. Quem já é reconhecido numa área tem mais a perder ao começar de novo em outra.

O medo cresce junto com a reputação, e faz sentido que ele cresça. Reputação é a coisa que você levou anos construindo. Ninguém arrisca isso com leveza.

Isso não é falta de vontade?

Não é. Eu queria muito. Eu quero até hoje.

A auto-sabotagem mora exatamente no ponto onde o desejo é grande. Onde não tem desejo, não tem sabotagem, tem só desinteresse. A dificuldade de começar é o sinal de que aquilo importa.

Como ela aparece no meu dia?

Ela quase nunca chega como preguiça. Chega como agenda cheia. Chega como uma revisão a mais. Chega como uma semana ruim.

Adiei por uma semana. Da semana virou mês. Do mês virou ano. Todas as desculpas eram verdade, e nenhuma delas era o motivo.

O que a autoajuda de disciplina erra aqui?

Ela trata como falha de caráter uma reação a risco. Aí você acorda mais cedo, monta a rotina, compra o método, e a rotina não encosta no ponto.

Eu escrevi em que a felicidade tira da gente o direito de ser vítima. Continuo achando, e isso corta dos dois lados. Eu sou responsável pelo que eu faço, e sou responsável também por não me tratar como caso perdido.

Qual é a minha prova?

Eu sou a prova. Eu já venci o "não tenho nada para ensinar" uma vez, e aquilo virou trabalho de verdade. Anos depois, num assunto novo, eu me peguei dizendo que me sentia uma fraude falando daquilo.

A mesma pessoa. A mesma frase. Território diferente. Foi aí que eu entendi que aquilo não era um degrau que eu tinha subido errado.

O que se faz com isso, então?

Se nomeia. Nomear tira o assunto do território do caráter e devolve para o território do risco, que é onde ele sempre esteve.

Depois de nomear, eu faço uma coisa só. Publico antes de me sentir pronta. A sensação de estar pronta chega depois de publicar, e nunca antes.

E se eu fizer isso e for julgada?

Vai ser, e mais cedo do que você imagina. Escrevi em que as nossas vulnerabilidades deviam virar a nossa maior força, e que valia ser a primeira pessoa a falar daquilo que constrange a gente.

Quem fala primeiro escolhe as palavras. Quem espera recebe as palavras dos outros. Essa é a única vantagem real que existe nessa história, e ela é grande.

A auto-sabotagem vai voltar no próximo território, e vai usar as melhores desculpas que tiver à mão. Da última vez ela chegou como agenda cheia e ficou meses. Foi embora num dia em que eu publiquei uma coisa pequena.

Quem me procura quase sempre chega com eu quero aparecer e me saboto na boca. É por ela que a conversa começa.