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canonical: https://flaviamonjardim.com/tenho-vergonha-da-minha-trajetoria/
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# "A minha trajetória não é digna de ser contada."

Eu já pensei isso da minha, e por muito tempo. A parte que eu queria esconder era justamente a que explicava o resto. Escrevi uma vez um texto sobre a primavera de Paris para dizer uma coisa simples. Ela é tão celebrada porque os meses que vêm antes dela são cinzas e frios.

## De onde vem essa vergonha?

De comparar o seu bastidor com a vitrine dos outros. Você conhece cada tropeço seu de muito perto. Do outro lado, você vê a versão já montada.

A comparação nasce torta. Ela coloca o seu material bruto contra o material editado de outra pessoa.

## O que Paris tem a ver com a minha carreira?

Tem tudo. Mil canções celebram a primavera de lá. O que ninguém conta é que os sete meses anteriores são completamente cinzas e frios.

A verdade é que a alegria só tem valor porque a gente já experimentou os dias tristes. Fugir do frio adianta pouco. É ele que faz o sol valer.

## Isso vale para trabalho, ou só para estação do ano?

Vale para qualquer coisa que tenha antes e depois. Eu escrevi aquilo em 2022 sobre uma travessia difícil, e a régua atravessa o resto sem esforço.

O ano em que você errou de porta é o que te ensinou a reconhecer a porta certa. Sem ele você teria sorte, e sorte não se repete.

## E as escolhas que eu não defendo mais?

Elas entram, e entram sem enfeite. Eu escrevi em 2022 que sigo pagando por algumas até hoje.

O que mudou em mim foi parar de terceirizar a conta. É sempre mais confortável dizer que a culpa é do patrão. Do trauma. Da falta de apoio.

## Existe outro lado nessa conta?

Existe, e é o lado que a gente esquece. Eu escrevi, no mesmo texto, que também já acertei bastante e que sou responsável pelas coisas boas que vieram desses acertos.

Emendei a frase seguinte com ponto de exclamação: isso precisa ser reconhecido. Reconhecer o próprio acerto é a metade da conta que quase ninguém faz.

## Como a vergonha diminui, na prática?

Falando. Eu escrevi que, quando a gente fala com naturalidade sobre aquilo que incomoda, aumentam as chances de aquilo parar de incomodar.

Isso é exposição em dose pequena. A primeira vez custa caro. A terceira custa quase nada.

## Por onde eu começo, então?

Pelo ano que você pula quando alguém pergunta o que você fazia antes. Aquele buraco na sua resposta tem nome, e ele costuma ser o começo do texto.

Conta o que aconteceu, o que aquilo te ensinou e onde isso aparece no seu trabalho hoje. Três frases já bastam para uma primeira vez.

Eu vou escrever a minha por aqui, com os meses cinzas dentro. Nenhum deles vai sair da conta. A primavera de lá é celebrada porque os sete meses antes dela foram cinzas e frios. Ninguém publica foto dos sete meses.

Quem me procura quase sempre chega com a minha trajetória não é digna de ser contada na boca. É por ela que a conversa começa.

Outras perguntas desta série

- [Não tenho histórias pra contar](/nao-tenho-historias-pra-contar/)

- [Nada de novo pra dizer](/nao-tenho-nada-de-novo-pra-dizer/)

- [Se reconhecer autor da própria história](/se-reconhecer-autor-da-propria-historia/)

Se essa trava é a sua, é dessa entrada que eu cuido. A conversa começa na [minha página na Autoria](https://autoriaboutique.com.br/flavia-monjardim/).
