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Flávia Monjardim

O que eu conto sobre mim, e o que eu guardo?

A régua que eu uso é curta. Eu conto cicatriz e guardo ferida aberta. Cicatriz é a história que já tem desfecho, e o desfecho é o que a torna útil para quem ainda está no meio dela. Ferida aberta ainda está sendo vivida, e o que ela pede é cuidado.

"Ou você é autêntica, ou você guarda tudo." Por que essa conta não fecha?

Porque ela mistura duas coisas diferentes. Autenticidade é sobre o que você diz ser verdade. Exposição é sobre volume.

Dá para ser inteiramente verdadeira contando uma parte pequena. E dá para contar a vida inteira sem dizer uma frase honesta.

Qual é a régua, na prática?

Cicatriz sai. Ferida aberta espera. O tempo decide.

Eu escrevi sobre os sangramentos da gestação depois que eles pararam. Escrevi sobre a depressão depois que ela já tinha ficado para trás. Escrevi sobre o diagnóstico que me deu quase nenhuma chance de engravidar quando eu já estava grávida. Em nenhuma das três eu estava pedindo socorro em público.

Como eu sei que a ferida virou cicatriz?

Pelo tempo verbal e por um segundo sinal, que é mais duro. Enquanto eu preciso escrever aquilo para me sentir melhor, ainda é ferida.

O segundo sinal é a reação. Se eu preciso do que os outros vão dizer para ficar de pé, a história ainda é minha demais para sair. Quando eu consigo contar sem que ela me derrube, virou cicatriz.

E as outras pessoas que aparecem na história?

Aqui a régua muda de dono. Sobre mim, eu decido sozinha e assumo o custo. Sobre qualquer outra pessoa da cena, o custo é dela, e eu não tenho o direito de gastar o que não é meu.

Por isso eu tiro o nome. Tiro o detalhe que identifica. Às vezes tiro a cena inteira. Quando a história só funciona com a pessoa reconhecível, ela não sai.

Existe uma pergunta que resolve o caso a caso?

Existe, e eu faço na ordem. Primeiro: alguém pode ficar desconfortável de saber isso a respeito de si? Se a resposta for sim, acaba por aí.

Só depois vem a segunda. Isso ajuda mesmo a entender a história, e o desconforto é improvável? Se a resposta for sim, pode ir. A primeira pergunta é um veto, e utilidade nenhuma compra desconforto de ninguém.

Guardar não deixa o texto morno?

Deixa o texto mais preciso. O que emociona em um texto é o detalhe exato, e detalhe exato cabe num pedaço pequeno.

Eu contei 17 quilos, e guardei o ano inteiro. Contei o dia em que fiquei jogada no chão de um aeroporto em Copenhagen, e guardei o resto da viagem. O pedaço escolhido chega mais longe do que o relato completo.

E quando a história ainda está aberta?

Ela vira anotação, e não publicação. Eu escrevo do mesmo jeito, com a mesma sinceridade, e deixo o arquivo fechado.

Eu fui parar numa nutricionista aos 11 anos, a pedido meu. Eu só escrevi sobre isso na gestação, muitos anos depois. O tempo fez o trabalho que nenhuma técnica de escrita faz. Ele transformou o que doía numa coisa que eu podia oferecer.

Autenticidade é dizer a verdade sobre o pedaço que você escolheu contar. Talvez você já tenha uma história cicatrizada e ainda guardada. As duas perguntas resolvem em um minuto, e a primeira é a que decide. Me conta como foi.

Quem me procura quase sempre chega com eu não sei o que contar e o que guardar na boca. É por ela que a conversa começa.