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Flávia Monjardim

"Falar do meu próprio trabalho é se exibir?"

Eu também achava, e mudei de ideia por um caminho estranho. Escrevi em 2022 que já tinha acertado bastante na vida e que era responsável pelas coisas boas que vieram desses acertos. Emendei, com ponto de exclamação, que isso precisava ser reconhecido. Levei anos para conseguir escrever aquela frase.

De onde vem a ideia de que gente séria não se mostra?

De uma confusão entre duas coisas que ocupam o mesmo espaço na tela. Uma pessoa contando o que fez e uma pessoa pedindo aplauso se parecem muito de longe.

Quem olha leva um segundo para separar as duas. E a gente prefere sumir a correr esse risco.

"Eu sempre fui dos bastidores." Isso me desqualifica?

Joga a favor, e por um motivo concreto. Quem passou a carreira nos bastidores sabe como a coisa é feita por dentro. É essa parte que quase ninguém conta.

Ser bom no que se faz e saber falar disso são duas competências separadas. A segunda se aprende depois, e se aprende mais rápido do que a primeira.

Qual é a diferença entre as duas, então?

O destinatário. Um texto que existe para você se sentir melhor termina em você. Um texto que existe para alguém decidir alguma coisa termina na outra pessoa.

Você sabe qual dos dois escreveu. Basta reler e reparar em onde a frase para.

Isso é só uma justificativa elegante?

Talvez seja, e eu levei essa dúvida a sério por um tempo. Fui procurar a resposta num assunto que não tem nada a ver com trabalho.

Eu escrevi um texto inteiro sobre beleza, em , e a tese dele resolve esta pergunta aqui.

O que a beleza tem a ver com autopromoção?

Tudo. Escrevi que procuro estar em ambientes bonitos, que busco apurar o olhar para os detalhes e que cuido da minha casa com carinho, mesmo numa fase em que eu não tinha endereço fixo.

E escrevi a parte dura logo depois. Quem desiste completamente de perseguir o belo já desistiu também de si.

Como isso vira régua para o meu trabalho?

Cuidar da aparência de uma coisa é uma forma de respeito por ela. Vale para uma casa. Vale para o que você faz das oito às seis.

Deixar o próprio trabalho invisível é um jeito silencioso de dizer que ele não merece cuidado. E ele merece o mesmo cuidado que você deu a ele enquanto o fazia.

Como eu faço isso sem virar o que eu detesto?

Pelo fato. O que foi feito. Para quem. O que mudou depois.

Adjetivo sobre si mesma pede que o leitor acredite em você. Fato deixa o leitor concluir sozinho, e a conclusão dele pesa mais do que qualquer elogio meu.

E se soar como conversa fiada?

Aí você entrega a prova junto. Eu escrevi uma vez que falar até papagaio fala, e que o que me convenceu naquela história foram as ações.

Vale aqui inteiro. A prova fala mais alto do que o adjetivo.

A vitrine bem cuidada é um gesto de respeito pelo que está guardado dentro dela. Talvez a sua comece pelo trabalho que já está pronto e que ninguém sabe que existe. O que foi feito, para quem, e o que mudou depois. O adjetivo fica com quem leu.

Quem me procura quase sempre chega com falar do meu próprio trabalho é se exibir na boca. É por ela que a conversa começa.