Quem sou eu pra falar disso?
Essa pergunta chega no minuto exato em que você vai publicar. Eu escrevi um texto inteiro sobre uma travessia que eu ainda estava atravessando, e deixei isso escrito dentro da própria peça. Confessei que não sabia a saída. Foi o texto que mais me trouxe conversa naquele ano.
"Preciso de mais bagagem." Quanto é suficiente?
A conta nunca fecha. Você estuda mais um ano, entrega mais um trabalho, atende mais um cliente. A pergunta continua ali, do mesmo tamanho.
Ela trocou de assunto no meio do caminho. Começou pedindo bagagem e terminou pedindo autorização. Bagagem se acumula com o tempo. Autorização, ninguém entrega para você.
O que eu fiz quando a pergunta veio?
Publiquei mesmo assim, e publiquei declarando onde eu estava. Escrevi que estava no comecinho daquilo. Escrevi que, honestamente, eu não sabia a solução.
Depois arrisquei uma hipótese com todas as ressalvas e devolvi a pergunta para quem estava lendo. Era a coisa mais honesta que eu tinha para oferecer naquele dia. Bastou.
Por que isso funcionou melhor do que parecer pronta?
Porque quem está no meio de uma travessia reconhece outra pessoa no meio da mesma travessia. Quem já saiu descreve a saída de longe.
A pessoa que está começando raramente precisa da versão final. Ela precisa de alguém três passos à frente, olhando para trás.
De onde vem essa sensação, afinal?
Da insegurança, e ela tem endereço. Eu já escrevi uma lista de perguntas para achar o endereço dela. O que te deixa insegura? Sua aparência? Sua situação financeira? Seu passado?
Quase todo mundo marca uma. E quase ninguém desconfia de que marcou a mesma que a pessoa do lado.
A fragilidade atrapalha ou ajuda?
Ela começa o trabalho. Eu escrevi em que a consciência da fragilidade é o primeiro passo para a transformação, e sigo assinando embaixo.
Quem sabe onde é frágil sabe onde pedir ajuda. Quem finge firmeza em toda parte passa a vida defendendo um território grande demais.
E se alguém me questionar em público?
Alguém vai. Eu escrevi na mesma época que ser alvo de zombaria de vez em quando não faz mal, porque evita que a gente se leve a sério demais.
Fico com essa. Prefiro a pessoa que erra em público e corrige à pessoa que acerta tudo calada.
Por onde eu começo hoje?
Pelo que você já explica todo dia sem cobrar por isso. Aquela resposta que você dá de memória. Aquela coisa óbvia demais para virar texto.
Óbvio para você é a definição exata do seu conhecimento. Ele fica óbvio depois que a gente aprende.
Eu ainda faço essa pergunta antes de publicar, e escrevo com ela do lado. O que mudou foi que parei de esperar ela ir embora primeiro. Qual é a coisa que você explica há anos e nunca escreveu?
Quem me procura quase sempre chega com quem sou eu pra falar disso na boca. É por ela que a conversa começa.